Versos Intimos


 

MATERNAL

 

Passou-se mais um dia de sofrimento, Marcelo não aguentava mais o sofrimento... Era mais uma vez que entrava na porta e encontrava sua mãe ensanguentada... Dessa vez tinha sido uma queda pequena, contudo aquele corpo de 92 anos não suportaria tanto. Há mais de três anos ele sabia da doença degenerativa... evoluiu muito rápido... sem preparo e sem condições, Marcelo já havia largado um dos seus empregos para cuidar da sua mãe... a receita caía... os problemas aumentavam... Três anos e a vida social tinha decaído... Outras pessoas para cuidar destruíam o orçamento que era apertado... Filho único, único dever...Colocou seu amor em cima dos cuidados e sacrificava-se a todo momento para dar o alento a quem o tinha criado... Obviamente o peso da responsabilidade crescia a cada momento... a cada dor, a cada queda, a cada esquecimento... Seu nome e identidade já haviam sumido... a luta de a cada dia ter que usar de métodos agressivos para garantir à sua mãe alimentação e cuidados básicos o consumia dia após dia... mudou seu horário de trabalho – agora estava à noite – e este fato provocou-lhe mais um crime... como devia deixá-la sozinha... usava medicamentos sedativos e trancava a porta... isso o desesperava... noite após noite, mais lágrimas transfiguradas em sorrisos para fins de trabalho... a cada manhã um susto... os remédios não possuíam mais efeitos e nem controle... aumentou a dosagem... Percebeu que a cada aumento da dose sentia um prazer estranho... três anos... isolamento, tristeza, dor, raiva...raiva... ele tinha raiva dessa condição, mas estava preso... sentia-se como um criminoso, mas não assumia nem pra si mesmo... era sua mãe, sua vida... mas quando chegava do trabalho e subia lentamente o elevador até o oitavo andar... um misto de medo e esperança forçava-o a imaginar a morte de sua mãe... Era tanta dor – sua lágrima dizia... Era tanto amor – seu peito angustiado dizia... Mas Marcelo continuava sofrendo, continuava culpando-se, continuava dopando, continuava desejando... Mais um dedo cortado... mais um escorregão... mais uma entrada na emergência... Marcelo já não vivia... não sentia sua própria respiração... não sentia que vivia... era um autômato... um braço, uma consciência da própria mãe que nunca estaria dentro dela novamente... passava os dias a cuidá-la, o pouco tempo que ela ficava quieta conseguia assistir um pouco de TV, era seu único momento social... divagava para a mãe na hora do almoço coisas que ela nunca entenderia... não se olhava no espelho e nem se deixava envaidecer... a barba crescia...o cabelo crescia...a esperança sumia... Foi então que no dia de sol, que o perturbou na cama as 6hs da manhã do dia de folga, o espírito se achou diferente... não era a tristeza comum que lhe dava bom dia não conseguia reconhecê-la... e como por impulso, ou como carregado levantou-se e abriu as janelas e a varanda, o que não fazia há muito tempo... entrou no banheiro e fez a barba, tomou um banho, preparou seu café e sentou-se na sala em frente a varanda... espírito estranho, voz estranha, nem consigo conversava... percebeu sua mãe balbuciar algumas palavras enquanto caminhava pela sala... baixou a cabeça... sentiu uma dor e uma raiva nos olhos... sentiu o amor pular em seu peito... faltou-lhe ar... a mãe seguiu para a varanda... o ar sumiu... o coração pulou... a mão tremeu e a lágrima caiu com um som diferente...

 



Escrito por Jardson às 20h41
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